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Gamertag: Willian Braga XFIRE ID: neverping Steam ID: neverping
Default Por que tudo custa tão caro no Brasil

30-04-13, 10:29 #1
Tirem um tempo pra ler. Vale a pena!

http://super.abril.com.br/blogs/crash/pagina-exemplo/
Por que tudo custa tão caro no Brasil
Por Alexandre Versignassi e Felipe van Deursen

Perguntaram ao ganhador do Big Brother:

- E aí? O que você vai fazer com o seu milhão?

- Vou comprar um apartamento em Brasília.

- E com o resto?

- O resto eu financio pela Caixa!

Essa piada já rola há um tempo em Brasília. Mas serve em qualquer lugar. De 2008 para cá, só em São Paulo, os imóveis subiram 163%. R$ 1 milhão é o novo R$ 380 mil no Banco Imobiliário da vida real. O metro quadrado na capital paulista e no Rio já está entre os mais altos do mundo. Nos bairros ricos, então, haja Big Brother: um apartamento de 100 m² no Leblon custa a mesma coisa que um em Paris – R$ 2 milhões. E já começam a aparecer nos classificados coberturas de R$ 20, R$ 30 milhões.

Aqui embaixo, as leis não são diferentes. O Big Mac brasileiro é o quinto mais caro do mundo. Enquanto os moradores de Tóquio pagam R$ 7 por ele, nós gastamos R$ 11,25 – e olha que o Japão não é exatamente um país conhecido pelo baixo custo de vida. Em Paris, que também não está na lista das cidades mais baratas da Terra, você paga R$ 25 por uma coxa de pato. Isso no Chartier, um restaurante badalado do bairro mais fofo da cidade, Montmartre. Na nem tão fofa assim São Paulo, o mesmo pedaço de pato pode custar até R$ 70 – e não consta que o dono do restaurante pague ao pato para que ele venha voando de Montmartre até a Vila Madalena.

 


Com o frango é diferente: ele vai voando, sim. Boiando, na verdade – congelado dentro de um cargueiro, mas vai. Daqui até a Europa. O Brasil tem de frango quase o que a China tem de gente (1,26 bilhão, segundo o IBGE). É o maior exportador do mundo. Parte desse efetivo galináceo vai para a Alemanha após a morte. E alguns desses penados possivelmente acabam no Görlitzer Park, onde os berlinenses fazem fila para comprar pratinhos de halbHähnchen (meio frango). Custa R$ 9,50 lá, com batata frita. No Brasil é quase R$ 20. Sem batata frita.

E não é só frango que a gente manda ao mar e que é vendido mais barato lá fora. Mandamos carros. O Gol sai da fábrica em São Bernardo do Campo (SP) e desliza de cargueiro até o México. O modelo básico lá é o 1.6 quatro portas, com ar-condicionado. Aqui, um Gol assim sai por R$ 37 mil. Lá, Dona Florinda e Professor Girafales podem pagar R$ 23 mil pelo mesmo “Nuevo Gol”. Se o Quico fizer birra e quiser um carro mais vistoso, dá até dá para pensar num Camaro. Lá custa R$ 65 mil. Aqui, R$ 190 mil. Com a diferença, dá para pagar um ano e quatro meses de diárias no Las Brisas Acapulco, um dos melhores hotéis do balneário mexicano.

 



Agora, quando o carro é caro mesmo, a diferença fica épica. Sigam-me os bons: o conversível mais invocado da história deve chegar ao Brasil em 2013. É o Lamborghini Aventador LP 700-4 Roadster. Aqui, ele vai ter uma etiqueta de preço tão grande quanto o nome: R$ 3 milhões. E pelo menos três brasileiros já reservaram os deles. Mas então, Eike: se você deixar para gastar esses R$ 3 milhões nos Estados Unidos, pode comprar um helicóptero, um apartamento em Manhattan e mais o mesmo Lamborghini! Olha só.

E um apartamento nos Jardins então, à venda por R$ 30 milhões? Cinco suítes, oito vagas na garagem… Uau. Mas com essa grana você compra um palácio na França (R$ 14,4 mi), uma vila em Portugal (R$ 8,6 mi), uma fazenda na Itália (R$ 3,4 mi), uma cobertura no litoral da Espanha (R$ 2,2 mi) e mais um chalé nos Alpes (R$ 1,4 mi). E ainda sobra um troco para o lanche. Se for um Big Mac, melhor ainda. Ele é mais barato em todos esses países.

E é isso que os brasileiros vêm fazendo, por sinal: deixar para comprar em outros países. Você sabe: iPad, enxoval de bebê, maquiagem… Todo mundo volta carregado. O português das vendedoras de Miami já está melhor que o nosso. E tinha de estar mesmo: o gasto de brasileiros no exterior é o que mais cresce no país. O PIB travou, mas a quantidade de dólares que gastamos lá fora sobe que é uma beleza. Eram US$ 10,9 bilhões em 2009. Hoje são US$ 22 bi. Dá um crescimento de 19,5% ao ano. O do PIB, no mesmo período, subiu só 2,7% por ano. Ou seja: estamos consumindo o PIB dos outros, já que o nosso está caro demais. Por que está caro demais? Porque o Brasil ganhou na Mega-Sena. E está gastando tudo no bar.

www.youtube.com/watch?v=2NhvnXsCkJ8
A multiplicação do crédito

Nossa Mega-Sena veio nos primeiros anos deste século. Entre 2003 e 2007, os cinco anos antes da crise de 2008, o Produto Interno Bruto do planeta cresceu em média 5% ao ano – com a China chegando a picos de 11%, 12%, depois 14%. “A economia mundial vem passando por uma fase de exuberância maior ainda que nos golden years da década de 1960”, escreveu na época o economista Fabio Giambiagi, do BNDES.

Bom, Produto Interno Bruto é um dado medido em dinheiro. Mas PIB não é dinheiro. PIB são coisas concretas. Só o crescimento do PIB chinês significou a construção de 1.500 prédios de mais de 30 andares por ano no país. Xangai, que não tinha metrô até 1995, passou a ter 454 quilômetros de linhas – contra 402 km em Londres, 337 km em Nova York e 74 km em São Paulo. Era um mundo novo nascendo do zero.

E o Brasil surfou nesse trem vendendo matéria-prima para o resto do mundo. Principalmente minério de ferro, petróleo e comida – commodities, como dizem os economistas. Entre o começo dos anos 90 e 2002, exportávamos em média US$ 54 bilhões por ano. De 2003 até 2011, a média triplicou para US$ 155 bilhões.

Não por coincidência, foi exatamente nesse período que 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza. Entraram para a classe C. Outros 9 milhões saíram da C e subiram para a A e a B. Tudo porque o dinheiro das exportações azeitou os motores da nossa economia. Funciona assim: imagine um sujeito que ganhou milhões com minério de ferro, tipo um diretor da Vale. Ele se aposenta, pega o que juntou nos anos dourados e abre uma rede de pizzarias. O gerente da pizzaria resolve comprar um carro. O dono da concessionária compra uma SUPER… e nós queimamos as calorias nadando na piscina de dinheiro que montamos na redação. São as engrenagens da economia girando.

Só isso já começa a explicar o boom dos imóveis. Agora o gerente da pizzaria, o dono da concessionária e a equipe da SUPER não dependiam mais do Baú da Felicidade para tentar o sonho da casa própria. Sentiram que dava e foram atrás de apartamento.

Mas prédios novos não dão em árvore e, como dizia o mafioso e investidor do mercado imobiliário Tony Soprano, “Deus não está abrindo terrenos novos por aí”. Emilio Haddad, um engenheiro especialista em imóveis e professor da USP, concorda com Tony: “A oferta de terrenos urbanos é escassa no Brasil”.

A escassez de oferta bateu de frente com a fome dos compradores. O preço dos imóveis, que estava mais ou menos estagnado havia dez anos, começou a subir. E o que aconteceu, então? Ficou mais fácil comprar apartamento! Não mais difícil, como a razão pura mandaria. É que a economia tem uma lógica peculiar: os bancos começam a financiar mais quando o mercado imobiliário esquenta. O banqueiro se sente protegido. Se o tomador do financiamento der calote, o banco vende o apartamento depois por um valor bem maior do que pagou. Imagine a situação: um cara financiou um apartamento de R$ 380 mil em São Paulo, em 2008, e perdeu o emprego. Não conseguiu mais pagar as parcelas do financiamento. O que acontece com o banco que pagou os R$ 380 mil pelo apartamento lá atrás? Ele vai e vende por R$ 1 milhão, ué. Lindo. É dinheiro certo, na alegria ou na tristeza. Nisso os gerentes começaram a receber qualquer um de braços abertos. Nem parecia banco…

Era o milagre da multiplicação do crédito. Se em 2007 os financiamentos habitacionais representaram 1,5% do PIB, em 2012 já eram 5,5%. Há dez anos existiam R$ 4 bilhões voando pelo sistema financeiro na forma de crédito imobiliário. Hoje são R$ 100 bilhões. E se a demanda já estava quente, com o estouro da boiada do crédito ela pegou fogo. Foi a disparada do terraço gourmet. Rio, São Paulo, Brasília, Recife, Fortaleza, Belo Horizonte… Em todas essas capitais o metro quadrado subiu mais que a inflação de 2008 para cá, que foi de 25%. No Rio, foram 200%, já que Deus não tem mais para onde aumentar o Leblon.

 



De quebra, o preço do cimento, do aço e de tudo o mais que você precisa para levantar um prédio também subiu. Quem reformou a casa recentemente sentiu o peso da argamassa de ouro. A unidade monetária dos mestres de obra passou a ser o “dois pau”. “Quanto sai para arrumar essa parede aqui?”. “Dois pau”. “E o encanamento?”. “Ah, dois pau”.

Como dissemos, esse fenômeno começa a explicar o aumento dos imóveis. Mas não termina. Tem outra razão para os aumentos, menos glamourosa que a piscina de dinheiro das exportações: a nossa lerdeza.

O custo Brasil

Dá para entender nossa lentidão sem sair do mundo dos imóveis. O método mais comum de construção por aqui continua sendo basicamente o mesmo da Mesopotâmia de 8 mil a.C.: a alvenaria – levantar paredes tijolo por tijolo (ou bloco de concreto por bloco de concreto), unindo tudo com argamassa. Lá fora, usam mais material pré-fabricado: uma usina vai e monta placas de concreto (ou de cerâmica). As placas saem da usina, vão para a construção, e os operários montam o prédio como se fosse um Lego gigante. Vão encaixando tudo. “Se aqui um empreendimento com duas torres de 35 metros exige até 1.500 trabalhadores e leva 42 meses para ficar pronto, os americanos erguem uma obra dessa magnitude em 30 meses e com metade dos funcionários”, disse Alessandro Vendrossi, diretor da Brookfield, uma construtora, em uma entrevista recente à revista EXAME. Na China, usando ainda mais material pré-moldado e uma logística do demônio, já conseguem levantar prédios de 30 andares em 15 dias. Olha só:



Se fosse assim no Brasil, a oferta de prédios novos acompanharia qualquer demanda. E o preço dos imóveis não teria explodido. Pelo menos não tanto. Por que não tem nada assim no Brasil, então? Porque os empresários e o governo gastam pouco para melhorar seus meios de produção, não investem o que poderiam em máquinas mais modernas e novas fábricas (como usinas de placas de concreto). Na China, esse tipo de investimento corresponde a 48% do PIB. Metade do que o país produz tem em vista justamente produzir mais. Um terço do aço que a China fabricou na era dourada, boa parte usando o nosso minério como matéria-prima, foi para a construção de novas usinas de aço. Aqui, pegaram o dinheiro do minério e foram comprar Land Rovers e reformar coberturas na Lagoa.

Investir em mais meios de produção é ótimo porque baixa os custos lá na frente. É um PIB que gera mais PIB. A argamassa não fica valendo ouro porque o país passa a produzir mais e melhor argamassa (ou placas pré-fabricadas). E aí não tem como surgir a cultura do “dois pau”. Os preços não partem para a irracionalidade. Não dá.

O nome técnico que os economistas dão para esse tipo de gasto é, não por acaso, “investimento”. E a regra é óbvia: quanto menos desenvolvido for um país, mais ele precisa gastar em investimento. Os emergentes colocam em média 31% de seus PIBs nisso. A Mongólia, novo quintal de commodities da China, 51%. Nós, 19%. É o mesmo tanto que o Egito – um país que só gastou de verdade com investimento quando fez as pirâmides.

 

investimento a longo prazo


Quem pode se dar ao luxo de gastar pouco com investimento são nações que já se desenvolveram há tempos: Suíça, Bélgica, Finlândia… Esses também estão no clube dos 19%, mas já são bem industrializados. Ainda não é o nosso caso. E, se continuarmos investindo pouco, nunca será.

A falta de investimento é a explicação por trás do “custo Brasil” – o fato de que produzir aqui é mais caro e penoso do que em países desenvolvidos. Ferrovia, por exemplo. Ferrovia é um caso clássico de investimento: custa caro, mas dá retorno de longo prazo, tornando fretes mais baratos. O Brasil tem 29,8 mil quilômetros de linhas férreas. Dez mil foram construídos por dom Pedro 2º. E hoje nossas linhas não alcançam os lugares que mais precisam delas, como as regiões produtoras de soja no Mato Grosso. Nisso a soja percorre boa parte do caminho até os portos de caminhão mesmo.

Resultado: enquanto o custo de transporte por tonelada de soja é de R$ 35 nos EUA, aqui é de R$ 160. Já a China, sempre ela, adicionou mais de meio Brasil em trilhos só entre 2007 e 2011: 19 mil quilômetros. E hoje eles têm 98 mil. Ficam atrás só dos EUA e da Rússia, outros dois países continentais, que também precisam de ferrovias para respirar (são 226 mil nos EUA e 128 mil na Rússia). Lembra de algum outro país continental no mundo? Canadá: 46 mil. Austrália: 38 mil. E a Argentina tem 36 mil, 7 mil a mais que o Brasil. Pois é.

Sem uma malha ferroviária decente, o custo do transporte vai lá para cima. E acaba embutido nos preços de tudo. Levar um carro da fábrica em São Paulo para uma concessionária em Salvador (a 1.900 km) custa quatro vezes mais do que o frete entre Xangai e Pequim (1.200 km).

Na era dourada dos anos 00, a China levantava duas termelétricas novas por semana. O Brasil, abençoado por Deus e hidrelétrico por natureza, não se preocupou tanto com a parte da energia. E agora estamos pagando a conta via custo Brasil. Produzir uma tonelada de cimento, por exemplo, custa por volta de R$ 30 em eletricidade. Parece pouco, mas o consumo de cimento em 2011 foi de 65 milhões de toneladas. Dá R$ 1,9 bilhão de conta de luz. Nos EUA, a energia industrial é 55% mais barata do que a nossa era até 2012. Ou seja: produzir a mesma quantidade de cimento lá estava saindo por R$ 1 bilhão a menos só na eletricidade. Metade do valor. E tome argamassa de ouro… Por que tão caro? Porque as companhias de energia tinham contratos de pai para filho – às vezes com reajustes anuais pelo IGPM, o índice de inflação invariavelmente mais gordo que o IPCA. Ser acionista de uma companhia de energia, até o ano passado, era dormir em berço esplêndido: muito lucro e pouca dor de cabeça com esse negócio de “investimento”. Tanto havia gordura para queimar aí que o governo renegociou seus contratos com as companhias de energia. A tarifa residencial caiu 18% e a industrial, 32%, segundo a Aneel. E o mundo não acabou, nem o Brasil apagou. Mas nossa indústria ainda paga 33% a mais pela energia do que a dos EUA. Ainda temos muito a investir aí.

Só que fica difícil investir quando a gente se depara com outro insumo que custa muito dinheiro: o próprio dinheiro. Pois é. O empréstimo para capital de giro (que os empresários usam para tocar despesas do dia a dia, como folha de pagamento) sai por uma taxa média de 19% ao ano. No Chile, são 5,8%. Na China, 3,7%. Na Alemanha, 2,5%. Nos EUA, 1,1%. Dá para ir até o final dessa matéria só listando os países em que o dinheiro é mais barato. Cortesia do nosso spread bancário. Spread é o seguinte: banco também toma dinheiro emprestado. Às vezes, de você mesmo. Quando você põe dinheiro em um CDB, por exemplo, está emprestando para ele. A diferença entre os juros que o banco paga para você e o que ele cobra quando empresta (na forma de crédito para capital de giro, por exemplo) é o spread. E o nosso spread é o maior do mundo. Vício de um sistema bancário acostumado a taxas pornográficas de juros. Seu cartão de crédito está de prova. E os preços altos também: a Fiesp diz que pelo menos 7,5% do preço final de qualquer produto é culpa dos juros que os bancos cobram. E que a indústria gasta R$ 156 bilhões anuais só para pagar esses juros. É o mesmo tanto que o BNDES empresta por ano para fomentar o “desenvolvimento econômico e social” que faz parte de sua sigla. Aí uma coisa acaba anulando a outra. Nossos juros altos, nossa energia cara e nossa logística do século 19 são grandes freios para o PIB. E aceleradores dos preços altos.

Mas ainda tem o turbo dos preços: nossos amigos impostos, que estão sempre com a gente.

O manicômio tributário


Em 1821, dom Pedro, recém-nomeado príncipe regente, viu-se em uma enrascada. O Brasil estava quebrado. Para tentar reverter o quadro, uma de suas primeiras medidas foi abolir o imposto do sal e da navegação de cabotagem, que encareciam a produção de charque, um dos principais itens da economia de então. É, o excesso de impostos já era um entrave. Brasileiro, você sabe, paga muito imposto. Somos só o 75º país em PIB por habitante. Mas temos a 14ª carga tributária mais alta: 36,2% em relação ao PIB.

Mas o buraco é mais embaixo. Se fosse uma pessoa, nossa carga tributária seria aquele namorado problemático, cheio de picuinhas e histórias mal contadas. Imposto é uma coisa tão complicada no Brasil que as empresas gastam 108 dias por ano só para preparar, registrar e pagar tributos. Estamos em 130º no ranking de burocracia do Banco Mundial (que é de trás para a frente: quanto mais embaixo na lista, mais burocrático é o país). Se sua Praga fosse aqui, Franz Kafka teria muita inspiração para escrever a respeito (a República Tcheca manda um salve do 65º lugar, aliás). A média nos países desenvolvidos é de uma semana para tratar da papelada. “Já ouvi donos de multinacionais dizerem que as equipes da área de tributação são dez vezes maiores aqui que no exterior”, diz Fernando Pimentel, diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil. “É um manicômio tributário”.

 


As empresas gastam um terço do ano para lidar com impostos. São 88 tributos federais, estaduais e municipais, que vão da contribuição para a aposentadoria à taxa de lixo. Além disso, as regras mudam constantemente: 46 normas tributárias sâo editadas por dia. A cada 26 minutos, a Receita Federal cria uma nova regra.

Olhe seu sapato. Se for Made in China, ele custava cerca de US$ 5 quando desembarcou no Porto de Santos. A partir daí, o preço sobe. Primeiro, é o Imposto de Importação, um tributo federal que, no sapato, é de 35%. Depois, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que é recolhido pelos Estados (e, em cada um deles, há uma tarifa diferente). Os famosos PIS e Cofins também aparecem nessa operação. O Programa de Integração Social (PIS) foi criado para alimentar um fundo de pagamento de seguro-desemprego. Já a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) serve para investimentos em saúde, previdência e assistência social. No caso do sapato, eles somam 9,1%. Também há uma taxa de Cofins exclusiva para importados e, no exemplo chinês, uma sobretaxa de US$ 13,85 por par desembarcado no Brasil. É uma medida antidumping do governo. Ou seja, ela serve para evitar que o preço baixíssimo do calçado chinês prejudique a indústria calçadista brasileira – e também dá uma folga para que essa indústria não seja obrigada a baixar suas margens de lucro por causa da concorrência.

Ok. Agora, se o seu sapato foi fabricado aqui, a história muda. São 12% de ICMS e mais 9,25% de PIS e Cofins. Mais outros 3,4% de Imposto de Renda e de Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido (CSLL), um imposto que também foi criado para ser revertido em saúde, previdência e assistência social. Depois são 0,04% de IOF, o Imposto Sobre Operações Financeiras. E ainda tem os gastos com os funcionários: Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), que é aquela poupança que o governo faz em seu nome, caso você seja demitido sem justa causa. E a taxa do INSS, o Instituto Nacional da Seguridade Social, que um dia pagará sua minguada aposentadoria. Somados, dão 6,5%. Assim, o calçado sai da linha de produção a R$ 59, segundo a gerente de custos de uma fábrica de grande porte que preferiu não ser citada. Cansou? Pois isso é só na indústria. Sobre o varejo, incidem ICMS, PIS e Cofins, além de um outro, o ISS, sobre serviços, cobrado em cada município (varia entre 2% e 5%).

Calma que piora. Se você simplesmente somar os percentuais de impostos, a conta não fecha. É que há tributos que incidem uns sobre os outros. E vão depender se a empresa paga imposto sobre o lucro presumido ou real, por exemplo. E aí os preços ficam como ficam. No ovo de Páscoa, 38,5% do valor cobrado são impostos. E, no bacalhau importado, gordurosos 43,7%. Por isso que cada vez mais gente vai às compras no exterior: um Samsung Galaxy SIII, em Miami, sai por R$ 650. Em São Paulo, o celular não sai por menos de R$ 2.048. Pelo menos em parte, dá para culpar os impostos: lá são só 7%, enquanto aqui são quase 40%.

Para desatar o nó, economistas, políticos e empresários clamam pela reforma tributária. A maioria dos especialistas ouvidos pela SUPER defende que o imposto migre do consumo para o patrimônio, ou seja, que pese sobre o lucro e sobre a renda e não sobre trabalho, produção e consumo. Isso faz muita diferença. “Hoje, a maior parte do que pagamos de imposto é sobre o faturamento [tudo o que entra em caixa], não sobre o lucro”, diz o presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), João Eloi Olenike. Ou seja: os comerciantes têm de pagar impostos gordos mesmo quando têm prejuízo. Isso estimula bastante a livre-iniciativa – só que ao contrário. Enquanto a reforma não sai, alguns setores da economia fazem acordos pontuais. No ano passado, por exemplo, a indústria automobilística foi beneficiada pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Resultado: a venda de veículos subiu 4,6% em relação a 2011 – e o IPI virou garoto-propaganda dos comerciais de carro.

Mas não. Os impostos não explicam tudo sozinhos. Nem o custo Brasil. Outro fator também entra na conta: o “lucro Brasil”.

O lucro Brasil


No México, o Honda City é um carro importado. Não do Japão, mas de Sumaré, no interior de São Paulo. O City sai da fábrica da Honda, na região de Campinas, embarca para o México, e é vendido lá por R$ 33.500. Aqui, o mesmo modelo, da mesma fábrica, custa R$ 53.600.

O custo Brasil não explica a diferença, já que o carro é feito aqui, sob o corredor polonês de penúria que é produzir aqui. Tem os impostos. No Brasil, 36% do preço final de um carro é imposto. Significa que, despido de taxas, o City sairia por R$ 34 mil. Ok. Mas o México não é o Jardim do Éden tributário. O imposto lá equivale a 18% do preço final de um carro. Então o preço mexicano do City sem os tributos de lá seria de R$ 27.500. Ou seja: mesmo tirando os impostos da jogada, o City brasileiro ainda custa R$ 6.500 a mais que o seu irmão mexicano.

 



Com o Gol acontece a mesma coisa. No México, ele é um carro importado do Brasil, com a diferença que o modelo básico lá é bem superior ao nosso, que é 1.0, duas portas e sem ar. Mas vamos comparar só os modelos com a “configuração mexicana”. Descontando os impostos de cada lado, como fizemos com o City, o Gol brasileiro vendido no México ainda é R$ 4.500 mais barato que o nosso. Conclusão: a margem de lucro aqui é maior do que lá. E em tese deveria ser menor: o Brasil é o quarto maior mercado consumidor de carros no mundo, atrás apenas de China, EUA e Japão. É mais fácil ganhar na escala (vendendo mais a um preço menor) do que no México. Nosso mercado dá quatro vezes o deles. Mas não. Aqui é mais caro, mesmo tirando os impostos e o custo Brasil da jogada.

A Associação Nacional dos Produtores de Veículos (Anfavea) se defende. Diz que não é possível falar em preços fora da realidade do mercado em um ambiente competitivo como o brasileiro, onde há mais de mil modelos à venda, entre nacionais e importados.

De fato. Talvez o problema esteja mesmo na “realidade do mercado”. Nessa realidade, pagar R$ 100 mil em carro passou a ser uma despesa aceitável, mesmo que isso comprometa uma fatia gorda do salário. A verdade é que preços altos têm uma força magnética no País. Gostamos de gastar, de ostentar. É status. A ponto de lojas de preços acessíveis na Europa, como a espanhola Zara e a inglesa Topshop, virarem grife aqui. A regra no Brasil é consumir muito e poupar pouco. Segundo o instituto de pesquisas Nielsen, os brasileiros guardam 27% do que ganham – contra uma média de 39% no resto da América Latina. No ano passado, consumimos quase 10% a mais que em 2011, em especial nas concessionárias (30,3%) e nos supermercados (28,8%). Isso não é ruim na essência – no Japão, gastam pouco e poupam muito, e a economia deles está estagnada. Mas se a produção não acompanha o consumo, não tem jeito: os preços sobem. Outro problema é que nos endividamos muito. Uma pesquisa recente do Ibope diz que 41% dos brasileiros têm dívidas. Entre os alemães, por exemplo, são 10% (e isso é um recorde histórico lá).

“Nunca tivemos tanto crédito e, por falta de educação financeira, o pensamento é: ‘Estão me dando dinheiro, vou gastar’”, diz o economista Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas. Para Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, “as pessoas não estão acostumadas a lidar com isso. Doce é bom, mas demais lambuza”. Temos uma boa desculpa, até. Não faz tanto tempo, em 1993, a inflação medida pelo governo alcançou estratosféricos 2.477%. Todo dia 5, os brasileiros corriam ao supermercado para abastecer a despensa de arroz e feijão e o freezer de carne. Porque, no dia 6, os preços já teriam sido remarcados. Como pensar em poupar em um cenário desses? O negócio era gastar, antes que o dinheiro – ou seus zeros à direita – desaparecesse.

A verdade é que temos muito a aprender sobre como lidar com dinheiro. “Agora chega”, diz a economista Virene Roxo Matesco, da FGV. “A inflação foi debelada em 1994. Já temos uma geração de consumidores que não sabe o que é isso”, diz. “As pessoas não têm ideia do custo-benefício de poupar”. Pois é. Uma hora a gente aprende. Mas, se o governo e as empresas não colaborarem, investindo mais em produção e cortando tributos excessivos, não vai adiantar grande coisa. E vamos continuar enxergando os preços justos como uma atração turística do exterior.

PS. Pra quem gostou, aqui no meu livro tem mais sobre o manicômio econômico:

http://www.livrariasaraiva.com.br/pr...pro_id=3534468





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Suprido
Trooper
 

Steam ID: drakkix
30-04-13, 10:32 #2
Li a matéria da SUPER, muito bom para variar!

Suprido is offline   Reply With Quote
Gerson
Trooper
 

30-04-13, 11:09 #3
Muito legal mesmo.

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Eon
Trooper
 

30-04-13, 11:10 #4
Um texto interessante sobre o mesmo assunto, mas com uma abordagem um pouco mais técnica pra quem gosta: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1557

Um parágrafo de ouro que resume quase todo o problema:


"A produtividade econômica é a chave da prosperidade. O grau de produtividade representa um determinante essencial para o nível de salários. O verdadeiro mecanismo de saída da pobreza é o aumento da produtividade, e não a distribuição de esmolas. Para colocar o Brasil no caminho de prosperidade não basta jogar com a macroeconomia como se ela fosse uma bola pingue-pongue. O que o país precisa é de uma estratégia de desenvolvimento econômico de longo prazo, direcionada para o aumento da produtividade. Porém, isto requer acumulação de capital e inovação — algo que é impossível de se obter sem altas taxas de poupança e investimentos."

Eon is offline   Reply With Quote
Daniloko
Trooper
 

30-04-13, 11:17 #5
Sensacional o texto!

como diria o aranhacontorntron

o Brasil me ENERVA... e os brasileiros tbm

Daniloko is offline   Reply With Quote
Capyvara
Trooper
 

30-04-13, 13:17 #6
Vale muito a pena ler, as vezes me da vontade de abandonar esse barco, que nao sei como nao afundou ainda.

Capyvara is offline   Reply With Quote
dankretli
Trooper
 

30-04-13, 13:35 #7
Foda o texto! e revoltante tb! A grande questão é que pagamos os maiores impostos e temos o menor retorno... E tudo é caro, muito caro! Isso não é sustentável nem mesmo a curto prazo, o Brasil não se preparou no "verão" e "the winter is coming"... Tamo FUUUUU!

dankretli is offline   Reply With Quote
EviLBraiN
Trooper
 

30-04-13, 14:55 #8
Legal o texto... mas o que nos resta fazer ? Acho que os poucos que leram entenderam o texto, parando de comprar, não vai ser suficiente para mudar algo...


E já ouvi mto falar que este PIB da china é maquiado... existem reportagens sobre cidades fantasmas da china... tudo construido, novo, bonito... e ng mora... pq não tem condições de morar/pagar... o pais constrói, mantem p PIB, mas na prática, não quer dizer que a população viva bem...

Qual a opinião de quem manja da parada ?

EviLBraiN is offline   Reply With Quote
Homebrewer
Trooper
 

30-04-13, 15:23 #9
Como disse um Sr. outro dia, "O Brasil é o país mais rico do mundo, todo mundo rouba e não quebra".

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dankretli
Trooper
 

30-04-13, 15:27 #10
Evil, tem essa historia mesmo da China... Acontece que os preços de imóveis lá tão mto altos, lembrando um país que conhecemos, e para evitar entrar em crise por causa da bolha imobiliária, o governo "mantém o estoque" tomando preju e sem ngm morando e continua construindo, pra adiar a crise ao máximo...

dankretli is offline   Reply With Quote
Jeep
fagmin
 

XFIRE ID: ds-jeep Steam ID: jeep_ds
30-04-13, 15:42 #11
nao manjo, mas eu acho que é justamente o contrario (parar de comprar nao resolve). O problema foi credito facil (forca bruta), entao em vez de poupar, melhorar os processos, jogaram dinheiro em cima e pronto, ta aqui seu bem, vai pagando a perder de vista, se der merda pego seu bem de volta mega valorizado e uhu!.

Agora, se as pessoas em vez de aceitarem pagar o dobro que o pais vizinho paga pelo mesmo carro, ou pagar em um bairro comum o preco do m2 de bairros chiques de paris, tivessem ficado com o dinheiro investido, vivendo com um pouco menos de conforto, eu acredito que a situacao teria que se adequar, pode ver que bastou um sustinho e tiraram ipi da linha branca, depois dos carros, e ai o povo commmmmprooooou ate nao poder mais. Imagine se nem assim tivessem comprado? eventualmente ia ficar mais em conta venderem mais barato por aqui do que no exterior. Valeria mais a pena pro construtor diminuir seu lucro e otimizar seus metodos.

basicamente imagine a 1a construtora que implantasse um metodo mais rapido e mais barato com qualidade decente? simplesmente ia comer todas as outras, mas pra que eles vao fazer isso se todo mundo compra a perder de vista? E na pior hipotese de uma quebradeira o morador perde a casa, o banco revende (se conseguir) e qq coisa temos o governo pra resgatar o banqueiro de lucro capitalista com preju socialista.

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Baron
Trooper
 

30-04-13, 15:51 #12
Jeep, esse crédito imobiliário é quase a mesma coisa que a impressão de papel moeda (lembra da inflação da década de 90?). A diferença é que não se alastra tanto na economia porque tem fronteiras um pouco mais limitadas (veja bem, "um pouco")

Os imóveis custam caro no Brasil porque estão inflacionados. E estão inflacionados por causa do excesso de crédito. Simples assim.

Outra:
É uma ilusão achar que a solução para tudo é parar de comprar os bens. "Carro tá caro? Estão todo mundo para de comprar carro aê!" Não funciona bem assim, você não pode parar de comprar certos bens.

O que funciona é a concorrência e a baixa de impostos. O problema é que o brasileiro é o primeiro que é contra a concorrência ("Abrir o mercado para produtos estrangeiros? Ficou louco?") .
Pelo menos percebe-se que as pessoas estão cada vez mais contra os impostos altos. Pelo menos isso...

De qualquer maneira, reduz imposto interno, reduz imposto externo e incentiva a concorrência (interna e externa). Taí meio caminho andado para a alta na qualidade de vida e da competição do país.

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Jeep
fagmin
 

XFIRE ID: ds-jeep Steam ID: jeep_ds
30-04-13, 16:14 #13
concordo baron, mas é que eu nao vejo o governo e mt menos as montadoras e construtoras ficando com pena do povo, o certo seria fazerem uma reforma tributaria, podar asinhas aqui e acola, mas sabemos que isso so vai acontecer via queda de braco.

Eu realmente nao sei se uma construtora ou se uma volks aguenta ficar 1 ano vendendo 20% do habitual, obviamente vao comecar as chantagens de "vamos demitir geral" "queremos subsidios", etc etc, mas sei la, a menos que o povo arregue, vai chegar uma hora que eles vao ter que ver se vale a pena perder todas as fabricas e o mercado e ir embora em vez de cobrar um preco de gente.

Eu gosto de usar o exemplo do chocolate lindt, que so era consumido quando alguem voltava do exterior, pq o preco aqui era estupido. Bastou o distribuidor fazer um acordo com varias redes de supermercado e vender o produto com uma margem "ok" e nao "estupradora" que ele conseguiu ganhar mt mais pelo volume de vendas, os supermercados idem, com isso ele tambem conseguiu melhores precos pelo volume que importava e no fim das contas, agora vc pode comprar um chocolate que antes custava R$ 30 por 11,90 a barra ou ate menos, mesmo com flutuacoes do dolar. Em resumo, querendo da pra fazer acontecer, so que na falta de um distribuidor com visao, colocar o escorpiao no bolso talvez faca efeito.

[SPOILER]
Qual é a diferença de preço entre o chocolate Lindt vendido no free shop do aeroporto de Guarulhos e o do supermercado do bairro? Algo em torno de R$ 10? R$ 5? Nada disso. São apenas R$ 0,40, no caso do tablete de 100 gramas do Lindt Milk. E isso não quer dizer que o free shop esteja caro. Lá, a barra é isenta de impostos e sai por US$ 4,20 (R$ 8,52, na cotação de quinta-feira). No supermercado, é possível encontrar o chocolate suíço por até R$ 8,90, mesmo com impostos. Qual é a mágica?
"Isso é resultado de uma política de trabalhar preços com os pontos de vendas iniciada há dois anos e que agora dá resultados", diz Deborah Navarro, gerente de marketing da Aurora, importadora dos chocolates suíços desde 1969.

Por muito tempo, segundo ela, os supermercados - o principal canal de vendas da Lindt no País - se acostumaram a vender o chocolate suíço a R$ 18, R$ 19, R$ 20. "Como é um produto fino, importado, o varejo colocava a margem deles lá em cima, porque achava que era um chocolate só para classe A", diz a executiva. Além disso, o consumidor que comprava Lindt, mesmo que fosse de maior poder aquisitivo, não era alguém que consumia os produtos da marca com frequência. "Era um consumo ocasional, não havia um hábito, uma frequência de compra", lembra Deborah.

A variação do dólar também se tornou um problema. Mesmo que a alta da moeda estrangeira não fosse repassada pela Aurora, os supermercados reajustavam o preço conforme cotação. "Uma hora o chocolate custa R$ 9. Na outra, R$ 10. Depois R$ 12 e, mais adiante, R$ 14. Isso assusta o consumidor que acaba abandonando a marca." A Aurora, então, decidiu fazer uma campanha para convencer o comércio a estabelecer uma margem menor e, assim, ganhar com mais escala nas vendas. "Estabelecemos um preço máximo sugerido de R$ 12,90", diz Deborah.

O contrato de venda, segundo ela, passou a estipular uma porcentagem sobre as vendas como remuneração ao varejo. Assim, quanto mais se vendesse, mais o supermercado ganhava.

Produto de luxo

Quando se trata de um produto quase de luxo, como Lindt, convencer o supermercado dessa estratégia não é fácil, diz Eugenio Foganholo, especialista em varejo. "Há resistência. É preciso deixar bem claro que é melhor vender dois chocolates por dois terços da margem do que um a 100%", afirma. Esse esforço, segundo Deborah, realmente foi uma batalha. O que ajudou, diz, foi o fato de essa estratégia ter sido combinada com um programa para ampliar a gama de pontos de venda do produto. Os chocolates, antes encontrados apenas em alguns supermercados, chegam agora a várias redes, padarias e até lojas de conveniência. Hoje, a Lindt tem cerca de mil pontos de venda em todo País, 20% mais que há dois anos.

Com mais concorrência, a tarefa de convencer os varejistas ficou mais fácil. O resultado? Alta de 30% nas vendas em volume em 2011 - que deve se repetir este ano. Para 2013, espera-se vender 20% mais. "Só do bombom Lindor, aquele embrulhado em papel vermelho, chegamos a vender 5,6 milhões de unidades", diz Deborah. Mesmo assim, o Brasil ainda não é expressivo para a marca. Europa e Estados Unidos são 86% do faturamento. O País está na região que a Lindt chama de "rest of the world" (resto do mundo), que tem 13% das vendas.

Apesar disso, o varejo comemora a alta nas vendas, embora alguns supermercados ainda se queixem da tática usada pela Aurora: "Eles diziam que iam cortar o rebate se a gente não baixasse o preço", diz um empresário do setor, que pediu para não ser identificado. O rebate é uma prática que alguns fornecedores adotam para incentivar vendas em escalas maiores. Em vez de vender 70 unidades de um produto, por exemplo, eles oferecem 100 e permitem que o varejista pague 80. A Aurora não comenta o assunto.

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Conrado
Banned
 

Gamertag: Conrado88 PSN ID: Conrado888
30-04-13, 16:15 #14
Eu me preocupo mais com a burocracia tributária e o desvio de verbas do que com os impostos altos. Se a verba do imposto fosse direcionada ao que deve ser, eu pagaria sorrindo.

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Baron
Trooper
 

30-04-13, 16:18 #15
Concordo Jeep. Mas você sabe qual é a dificuldade para um fornecedor desses entrar no país?

A burocracia é absurda. Eu sei na prática a putaria que é trazer empresa e empregados de fora. Se você não tiver um contato forte aqui no Brasil você simplesmente não consegue. LOL

E pra entrar um provedor de internet ou telefonia? E pra entrar uma cia aérea? Uma marca de carro?

O negócio é quase proibitivo. E isso é de propósito.

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Eon
Trooper
 

30-04-13, 16:23 #16
Quote:
Postado por EviLBraiN Mostrar Post
Legal o texto... mas o que nos resta fazer ? Acho que os poucos que leram entenderam o texto, parando de comprar, não vai ser suficiente para mudar algo...


E já ouvi mto falar que este PIB da china é maquiado... existem reportagens sobre cidades fantasmas da china... tudo construido, novo, bonito... e ng mora... pq não tem condições de morar/pagar... o pais constrói, mantem p PIB, mas na prática, não quer dizer que a população viva bem...

Qual a opinião de quem manja da parada ?
Existe uma grande diferença entre sustentar a demanda com investimentos que serão úteis no longo prazo (estradas, portos, imóveis, etc) e sustentar a demanda com compra de eletrodoméstico em 12x "sem juros" na base de bolsa-família, pra começar.

Isso foi muito bem explicado no texto do mises.org, para haver aumento do padrão de vida através de política de renda precisa haver aumento da produtividade simultaneamente (não é o caso do Brasil) senão a demanda nova apenas causa inflação (exatamente o caso do Brasil).

A China tem um crescimento que não se sustenta em algumas áreas (por exemplo esses prédios gigantescos que ninguém ocupa) exatamente por que a demanda caminha junto com a oferta.

Vou dar um exemplo pra você entender como funciona a questão imobiliária na China: o sujeito é investidor, e com uma porrada de incentivos do governo chega numa determinada área e ergue 10 prédios residenciais do dia para a noite, com a promessa de que haverá demanda para aqueles prédios no futuro. Enquanto ele vai lá e constrói os prédios (com recursos próprios na maioria das vezes, embora com incentivos) existe alguém trabalhando a demanda na outra ponta para assegurar que os imóveis serão ocupados em algum momento no futuro próximo. Se tudo dá certo, 3 meses depois (ou menos, os caras realmente levantam prédios em poucas semanas usando técnicas modernas de construção) o investidor terá prédios para vender e um comprador aparecerá com dinheiro na mão para comprar, os dois fazem negócio e fim, todos ficam felizes com o país crescendo e preços estáveis até a próxima rodada de investimento. Quando o comprador não aparece sobram imóveis vazios, mas isso empurra o preço para baixo e eventualmente os imóveis são ocupados. A chave aí é a produtividade, se o cara não vender os empreendimentos ele perdeu 3 meses de investimento e não 3 anos. Quando a produtividade é alta e o custo do investimento portanto é menor, portanto o risco também. Demanda e oferta andando juntos, produtividade alta e o poder de compra do salário alto. É assim que um país cresce.

Como se faz no Brasil? O governo despeja crédito imobiliário através da Caixa Econômica Federal e diversos programas especiais para quem quer comprar imóveis, ao mesmo tempo em que ele destrói a rentabilidade de todas as aplicações financeiras através da redução da taxa de juros básica e descontrole inflacionário. Sem opções de investimento com ganho real sobre a inflação, quem tem dinheiro sobrando no banco corre para o único investimento historicamente seguro desde que o Brasi é Brasil: imóveis. Quando ele chega no mercado todo mundo está fazendo o mesmo, alguns com dinheiro retirado de outras aplicações que subitamente se tornaram uma roubada, outros com cartas de crédito conseguidas junto ao Banco. De repente tem um montão de gente querendo comprar, mas não existem imóveis para todo mundo pois a oferta não consegue acompanhar, então os preços começam a disparar numa disputa pelos imóveis que já existem.

O "investidor" esperto percebe a tendência do mercado, pega uma parte relativamente pequena de recursos próprios, compra um terreno num lugar bem comercial, e monta uma casinha pré-fabricada com um stand de vendas com um monte de prospectos coloridos sobre quão maravilhoso o empreendimento dele será dali a três ou quatro anos, e começa a vender unidades "a vista" em um prédio que ainda não existe. Surpreendentemente (ou não) um monte de otários "compram" com suas cartas de crédito apartamentos que ainda não existem, com a expectativa de que dali a três ou quatro anos aquele apartamentinho de 50m2 construido com técnicas do tempo de tutancâmon valerá meio milhão de dólares, pois é assim que os preços tem se comportado nos últimos três ou quatro anos, e bla bla bla.

Resultado: Demanda explode, oferta não acompanha por uma mistura de oportunismo com baixa produtividade, e o que você tem é um montão de pessoas morando endividadas em apartamentos de 50m2 custando meio milhão de dólares, enquanto várias outras pessoas ficam de fora se arrependendo por não ter comprado aquele imóvel que três anos atrás tinha um preço exorbitante mas que hoje parece até razoável.

Isso é Brasil. Tudo pela metade do dobro agora, ou pelo triplo alguns anos depois, até que o país quebre de novo, e de novo, e de novo...


Last edited by Eon; 30-04-13 at 16:29..
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Jeep
fagmin
 

XFIRE ID: ds-jeep Steam ID: jeep_ds
30-04-13, 16:40 #17
Quote:
Postado por Eon Mostrar Post
Como se faz no Brasil? O governo despeja crédito imobiliário através da Caixa Econômica Federal e diversos programas especiais para quem quer comprar imóveis, ao mesmo tempo em que ele destrói a rentabilidade de todas as aplicações financeiras através da redução da taxa de juros básica e descontrole inflacionário. Sem opções de investimento com ganho real sobre a inflação, quem tem dinheiro sobrando no banco corre para o único investimento historicamente seguro desde que o Brasi é Brasil: imóveis. Quando ele chega no mercado todo mundo está fazendo o mesmo, alguns com dinheiro retirado de outras aplicações que subitamente se tornaram uma roubada, outros com cartas de crédito conseguidas junto ao Banco. De repente tem um montão de gente querendo comprar, mas não existem imóveis para todo mundo pois a oferta não consegue acompanhar, então os preços começam a disparar numa disputa pelos imóveis que já existem.

O "investidor" esperto percebe a tendência do mercado, pega uma parte relativamente pequena de recursos próprios, compra um terreno num lugar bem comercial, e monta uma casinha pré-fabricada com um stand de vendas com um monte de prospectos coloridos sobre quão maravilhoso o empreendimento dele será dali a três ou quatro anos, e começa a vender unidades "a vista" em um prédio que ainda não existe. Surpreendentemente (ou não) um monte de otários "compram" com suas cartas de crédito apartamentos que ainda não existem, com a expectativa de que dali a três ou quatro anos aquele apartamentinho de 50m2 construido com técnicas do tempo de tutancâmon valerá meio milhão de dólares, pois é assim que os preços tem se comportado nos últimos três ou quatro anos, e bla bla bla.

Resultado: Demanda explode, oferta não acompanha por uma mistura de oportunismo com baixa produtividade, e o que você tem é um montão de pessoas morando endividadas em apartamentos de 50m2 custando meio milhão de dólares, enquanto várias outras pessoas ficam de fora se arrependendo por não ter comprado aquele imóvel que três anos atrás tinha um preço exorbitante mas que hoje parece até razoável.

Isso é Brasil. Tudo pela metade do dobro agora, ou pelo triplo alguns anos depois, até que o país quebre de novo, e de novo, e de novo...
bom resumo, e pior que basicamente ja vimos esse roteiro antes:

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vegetous
Trooper
 

XFIRE ID: carniceiru
30-04-13, 16:40 #18
Na verdade o problema é que esse é mais um texto contando alguma merda do Brasil, que nós vamos ler, nos revoltar e continuar sentados sem fazer nada!

Enquanto estiver todo mundo na sua, resolvendo seus próprios problemas, o país vai continuar na merda!

vegetous is offline   Reply With Quote
Eon
Trooper
 

30-04-13, 16:59 #19
Quote:
Postado por Jeep Mostrar Post
Agora, se as pessoas em vez de aceitarem pagar o dobro que o pais vizinho paga pelo mesmo carro, ou pagar em um bairro comum o preco do m2 de bairros chiques de paris, tivessem ficado com o dinheiro investido, vivendo com um pouco menos de conforto, eu acredito que a situacao teria que se adequar
Eu mesmo me vi nessa situação 4 anos atrás, quando eu tinha poupança acumulada a duras penas, vendo os preços dispararem, ao mesmo tempo que ainda não dava para comprar nada do que eu queria, restando basicamente duas opções:

Opção 1 - Continuar guardando dinheiro para comprar um imóvel a vista dali a alguns anos, perdendo com inflação alta e retornos ridículos das aplicações de baixo risco (poupança, renda fixa, etc) além de arriscar ter que pagar um preço ainda maior no futuro por imóveis que já tinham preços abusivos na época.

Opção 2- Usar o dinheiro que eu tinha na época para dar entrada num imóvel e parcelar o restante em 1 milhão de parcelas, aceitando o preço abusivo dos imóveis como um dado da realidade e apostando que seriam ainda mais abusivos no futuro, tendo que lidar com banco e taxas de juros que eu possivelmente não seria capaz de pagar.

Ou seja, eu fui colocado numa situação em que eu poderia ser irresponsável de duas maneiras diferentes, uma aceitando perdas absurdas para uma poupança que levei anos para fazer e outra aceitando entrar num jogo especulativo com o qual eu não me sentia nem um pouco confortável. Comofas?

O resumo do jogo é que se eu tivesse feito a opção 1 hoje eu teria o suficiente para dar apenas 50% entrada no mesmíssimo imóvel e ainda teria que financiar o resto, sendo que apenas o financiamento em si correponderia ao PREÇO TOTAL que eu paguei pelo imóvel 4 anos atrás. Só sei que tem gente se achando muito rico porque comprou imóvel nessa bolha e agora os preços triplicaram, mas ninguém me explica como eu posso me achar mais rico se eu continuo morando exatamente no mesmo lugar e levando na verdade um padrão de vida PIOR do que eu levada alguns anos atrás, quando meu salário comprava bem mais em termos comparativos com o que ele compra hoje. Quanto a gente teve de inflação real nos últimos 4 anos? Uns 50% pelo menos, tirando o preço dos imóveis que estão fora da escala? Só se for tal da argamassa de ouro pra me fazer sentir mais rico mesmo. rs.

O fato é que poupar no Brasil é muito, mas muito difícil. Quando não tem Célia Cardoso confiscando a poupança, tem inflação. Isso quando não tem os dois. E no meio disso montes de planos econômicos miraculosos causando instabilidades imprevisíveis. E como ninguém consegue poupar no honesto e bom estilo "ganhar e guardar x% por mês" a poupança no Brasil é ridícula, e o nível de investimento consequentemente também.

Sem investimento não há produtividade, e aí o ciclo se fecha nessa desgraça que nós conhecemos como Brasil. Não tem jeito, pra resolver tem que dar reset na política econômica de décadas a fio e fazer o povo raciocinar responsavelmente de novo pra começo de conversa.

EDIT: Última vez que eu vi gráfico de produtividade em ascenção no Brasil foi no começo da faculdade, idos de 1995 logo após o plano Real. Lembra quando um monte de indústrias quebraram quando a moeda valorizou e o país se abriu para importações? Pois é, concorrência dá resultado como o Baron disse.

ESPETACULAR ESSE VÍDEO DO ESPANHISTÃO!


Last edited by Eon; 30-04-13 at 17:09..
Eon is offline   Reply With Quote
Jeep
fagmin
 

XFIRE ID: ds-jeep Steam ID: jeep_ds
30-04-13, 17:10 #20
yep, passei algo semelhante mas apos literalmente virar o chato das imobiliarias acabei achando uma mosca branca, mas sei que é excecao.

agora, junte seu caso (e o de todo mundo) com o post do vegetous, acho que a frase "a uniao faz a forca" nunca fez tanto sentido, "se eu posso pagar pra ter conforto, pq me prejudicar pra fazer com que os demais (eu incluso) tenham chances melhores?", fazer cabo de guerra contra cachorro grande so funciona se tiver a maioria participando, se uma boa parte continua mantendo os exploradores vivos, bom, é que nem tomar antibiotico so ate o sintoma sumir.

Jeep is offline   Reply With Quote
vegetous
Trooper
 

XFIRE ID: carniceiru
15-07-16, 19:24 #21

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