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Zedd
Trooper
 

Default Texto rox - "O Ritual do Corpo"

12-05-07, 17:00 #1
Leiam o texto, não está na íntegra porque recortei as partes que mais interressam.
Vale a pena. Parece chato nos primeiros parágrafos e no fórum parece enorme, mas são três páginas impressas em times 12 em folha a4.
E tem uma surpresa em spoiler no final. (mas leiam o texto antes)

Horace Miner
IN: A.K Rooney e P.L. de Vore (orgs)
YOU AND THE OTHERS - Readings in Introductory Anthropology
(Cambridge, Erlich) 1976

O Ritual do Corpo entre os Sonacirema

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comporamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que nem é incapoaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. (...)

Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar atenção dos antropólogos para os rituais dos Sonacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida até hoje.

Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. (...) Conforme a mitologia dos Sonacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem à sua nação (...).

A cultura dos Sonacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados em atividades rituais. O foco destes rituais é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, rarto, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associada são singulares.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença.

Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é evitar essas características, através do uso de poderosas influências do ritual e da cerimônia. Todo o grupo doméstico possui um ou mais santuários dedicados a tal propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm vários santuários em sua casa e, de fato, a opulência de uma moradia é freqüentemente aferida em termos da quantidade destes centros de rituais que abrigam.

O ponto focal do santuário é uma caixa ou arca embutida na parede. Nesta arca são guardados os inúmeros feitiços e porções mágicas, sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais feitiços e porções são obtidos de vários curandeiros cujos serviços devem ser retribuídos por meio de presentes substanciais. No entanto, o curandeiro não fornece as porções curativas para os fiéis, decidindo apenas os ingredientes que nela devem entrar, escrevendo-os, em seguida, em linguagem antiga e secreta. Tal escrita deve ser decifrada pelos herbanários, os quais, mediante outros presentes, fornecem o feitiço desejado.

O feitiço não é descartado depois de ter servido a seu propósito, mas colocado na caixa de mágica do santuário doméstico. Como esses materiais mágicos são específicos para certas doenças, e considerando-se que as doenças reais ou imaginárias deste povo são muitas, a caixa de mágica costuma estar sempre transbordando. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem sua serventia original, e temem usá-los de novo. Embora os nativos tenham se mostrado vagos em relação a essa questão, só podemos concluir que a idéia subjacente ao costume de se guardar todos os velhos materiais mágicos é a de que sua presença na caixa de mágica, diante da qual os rituais do corpo são encenados, protegem de alguma forma o fiel.

Embaixo da caixa de mágica existe uma pequena fonte. Todo dia, cada membro da família, em sucessão, entra no santuário, curva a cabeça diante da caixa de mágica, mistura diferentes tipos de água sagrada na fonte e realiza um breve rito de ablução.

Na hierarquia dos profissionais da magia, e abaixo do curandeiro em termos de prestígio, estão os que são designados como ‘homens-da-boca-sagrada’. Os Sonaciremas nutrem um misto de horror pela e fascinação por suas bocas que chega às raias da patologia. Acredita-se que a condição da boca possui uma influência sobrenatural nas relações sociais. Assim, o ritual do corpo, cotidianamente realizado por todos, inclui um rito bucal. O rito consiste na introdução de um pequeno feixe de cerdas na boca, juntamente com uma espécie de creme mágico e, em seguida, na movimentação deste feixe, segundo uma série de gestos altamente ritualizados.

Além deste rito bucal privado, as pessoas procuram um ‘homem-da-boca-sagrada’, uma ou duas vezes por ano. No seu templo, este mago possui uma impressionante parafernália que consiste em uma variedade de perfuratrizes, furadores, sondas e agulhas. O uso destes objetos no exorcismo dos perigos da boca implica em uma quase e inacreditável tortura ritual do fiel e, usando as ferramentas citadas, alarga qualquer buraco que o uso tenha feito nos dentes. Se não se encontram buracos naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são serrados, para que a substância sobrenatural possa ser aplicada. Na imaginação do fiel, o objetivo destas aplicações é deter o apodrecimento dos dentes e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do mito fica evidente no fato de que os nativos retornam, todo ano, ao ‘homem-da-boca-sagrada’, embora seus dentes continuem a se deteriorar.

Os curandeiros possuem um templo imponente, o Latipsoh, em cada comunidade, de algum tamanho. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para o tratamento de fiéis considerados muito doentes, só podem ser realizadas neste templo. Tais cerimônias envolvem não só o taumaturgo, mas também um grupo permanente de vestais que se movimentam nas câmaras do templo com uma roupa distintiva.

As cerimônias no Latipsoh podem chegar a ser tão violentas que surpreende o fato de que uma razoável proporção dos nativos realmente doentes, que entram no templo, consiga se curar. Crianças pequenas, cuja doutrinação é ainda incompleta, costumam resistir às tentativas de levá-los ao templo, alegando que ‘é aonde você vai para morrer’. Apesar disso, os doentes adultos não apenas desejam, como ficam ansiosos para submeter-se à prolongada purificação ritual, se possuem meios para tanto. Os guardiães do templo, não importa quão doente o suplicante esteja ou quão grave a emergência, não admitem o fiel se ele não puder dar um rico presente ao zelador. Mesmo depois que se conseguiu a admissão e se sobreviveu às cerimônias, os guardiães não permitem a saída do neófito até que este dê ainda outro presente.

O(a) suplicante, ao entrar no templo, é despido(a) de todas as suas roupas. Na vida cotidiana, os Sonacirema evitam a exposição de seus corpos quando das suas funções naturais. O banho e a excreção são realizados somente na intimidade do santuário doméstico, aonde são ritualizados, fazendo parte dos ritos corporais.

Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bem para fazer qualquer coisa que não seja ficar deitado em suas camas duras. As cerimônias implicam desconforto e tortura. Com precisão ritual, as vestais acordam a cada madrugada seus miseráveis crentes, rolam-nos em seus leitos de dor, em quanto realizam abluções, cujos movimentos formalizados são objeto de treinamento intensivo das vestais. Em outros momentos, elas inserem varas mágicas na boca do fiel, ou obrigam-no a ingerir substâncias que são consideradas curativas. De tempos em tempos, os curandeiros vêm até seus fiéis e atiram agulhas, magicamente tratadas, em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, ou até matar o neófito, não diminui de modo algum a fé do povo nos curandeiros.

Para concluirmos, deve-se mencionar certas práticas que estão baseadas na estética nativa, mas que dependem da aversão generalizada ao corpo e às funções naturais. Há jejuns rituais para fazer pessoas gordas ficarem magras, e banquetes cerimoniais para fazer pessoas magras ficarem gordas. Outros ritos ainda são usados para tornar maiores os seios das mulheres, se eles são pequenos, e menores, se são grandes.

Nossa descrição da vida dos Sonaciremas certamente mostrou que eles são um povo obcecado pela magia. É difícil compreender como eles conseguiram sobreviver por tanto tempo, sob os pesados fardos que eles próprios se impuseram. Mas, mesmo costumes tão exóticos quanto estes, ganham seu verdadeiro sentido quando encarados a partir do esclarecimento feito por Malinivski:

“Olhando de cima e de longe, dos lugares seguros e elevados da civilização desenvolvida, é fácil ver toda a rudeza e a irrelevância da magia. Mas, sem este poder e este guia, o homem primitivo não poderia ter dominado as dificuldades práticas como fez, nem poderia o homem ter avançado até os mais altos estágios de civilização.”



In: “American Anthropologist, vol. 58 (1956), pp. 503 - 507.
“Body ritual among the Nacirema”






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Zedd
Trooper
 

12-05-07, 17:01 #2
Lembrando: leiam o texto antes do Spoiler.
[SPOILER]Leiam o nome do povo ao contrário... alguns itens ao contrário, também

Zedd is offline   Reply With Quote
Kerpa!100
Carry
 

PSN ID: Kerpa100 Steam ID: Kerpa Wii Code: 1715 1365 8365 5261
12-05-07, 17:14 #3
Imaginei isso!
Gostei do texto

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Many Kalaveraa
The real (1)
 

XFIRE ID: Mannyy Steam ID: 76561197992661279
12-05-07, 17:27 #4
wtf?

Many Kalaveraa is offline   Reply With Quote
Zedd
Trooper
 

12-05-07, 17:39 #5
Qual a dúvida, Manny K?

Zedd is offline   Reply With Quote
Eon
Trooper
 

12-05-07, 23:49 #6
Quote:
Postado por Zedd
Lembrando: leiam o texto antes do Spoiler.
[SPOILER]Leiam o nome do povo ao contrário... alguns itens ao contrário, também
Matei essa quando cheguei nos homens-da-boca-sagrada... gostei do texto.

Eon is offline   Reply With Quote
Zedd
Trooper
 

12-05-07, 23:55 #7
Sim, eu curti porque além da óbvia crítica ao modo de vida embutida aí, é uma crítica muito muito bem feita, e eu diria até bem humorada, sobre o modo como a gente encara outras culturas.
Ok, é sobre o modo como os norte-americanos encaram, mas a gente tende a ir pelo mesmo caminho. Tipo, se um antropólogo de uma cultura 'superior' chegasse aqui e descrevesse nossa cultura assim, ele não estaria de todo errado né? Será que a gente não descreve assim, fantasiosamente, as culturas que a gente julga 'inferiores'?

Sei que esse texto me fez pensar, a partir da leitura dele eu passei a 'ser mais crítico' em relação a esses estudos e a esses textos de antropologia.

Zedd is offline   Reply With Quote
WaR WoLf
Trooper
 

18-05-07, 13:23 #8
Na antropologia moderna é difícil ver um autor que abrace o darwinismo cultural; para a grande maioria não existem divisões constritas entre as sociedades desenvolvidas e as sociedades tribais. A grande dificuldade de discorrer uma análise na cultura em que se vive é a mesma do mito da caverna descrito por Platão - em que todos os homens acreditam que a realidade é a sombra projetada de seus corpos. Como realizar uma leitura excludente ou imparcial de si não conhecendo nada além de sombras?
A leitura da civilização ocidental só pode ser feita por algum outro não inserido nela, algo que dialogue com os costumes de outrem, como a descrição dos índios nativos aos portugueses e seus costumes por exemplo.
E eu sou muito adepto dessa ordem una-cultural: os valores apenas são meramente substituídos por outros de igual relevância; não só quanto os costumes, mas até fatores usualmente discordantes como a religião e ciência possuem a mesma faceta social. O texto realmente é muito bom, ainda não o conhecia. Mas se pensarmos bem ele não sobrepõe por completo esta dificuldade narrativa, como qualquer outra leitura intra-ocidental não sobrepõe, portanto ela acaba descambando para um humor peculiarmente ocidental.
Uma pena haver esta inclusão geográfica logo no inicio do que entregou toda jogatina do puto, fora que eu costumo desconstruir palavras que eu não conheço (dividindo em silabas e as transformando em palavras conhecidas, lendo de trás pra frente, identificando um som comum no português se são estrangeiras etc).

WaR WoLf is offline   Reply With Quote
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